sexta-feira, 23 de maio de 2025

igreja

Uma igreja no meu caminho
No meu caminha havia uma igreja
E lá tropecei 

Iniciarei minha história em um dia frio, envolto em névoa espessa, como se o próprio tempo quisesse esconder o que estava por vir. Há quarenta e sete anos, fui atingido por uma enfermidade inexplicável, uma sombra silenciosa que invadiu meu corpo. Alguns a chamaram de poliomielite; outros, de um distúrbio nos nervos. Minha vida, desde então, passou a ser um fio tênue estendido sobre o abismo das limitações, como acontece com tantos que nascem sob o teto frágil da pobreza, onde o horizonte é muitas vezes um espelho embaçado.

A paralisia tomou meu lado direito, transformando-me em um barco à deriva, com os remos partidos. Meu cérebro já não conseguia comandar aquela parte do meu ser. Diante disso, não me restou senão lançar minhas preces como sementes ao vento, confiando que Deus, em Sua infinita bondade, e Seu Filho amado, que por nós se entregou, me acolhessem em seus braços invisíveis.

Um dia, enquanto seguia pela estrada que levava à cidade, avistei uma igreja, como um farol erguido no meio da travessia. Ali, aprendi o Salmo 23, um rio de esperança correndo entre as pedras do meu medo. O pastor pediu que eu o decorasse e, quando conseguisse, que retornasse.

Decorei cada verso como quem grava marcas em uma rocha. Pedi então à minha mãe que me acompanhasse de volta àquele lugar sagrado. A igreja vibrava como um coração pulsante: os cânticos elevavam-se como pássaros rumo ao céu, e o templo estava cheio, inundado de alegria.

Mas, ao regressarmos, para minha perplexidade, aquela igreja simplesmente não existia mais. Como um sonho que evapora ao amanhecer, havia desaparecido sem deixar vestígios. Procurei, aflita, junto de minha mãe, e perguntei-lhe: “Como pode sumir, assim, uma igreja tão grandiosa?” Ela manteve-se em silêncio, como quem ouve uma voz que só a alma entende. E, sem palavras, seguimos nosso caminho — dois peregrinos envoltos na névoa do mistério.
Deusa Matos

quinta-feira, 3 de abril de 2025

"Tonhão louco"

Minha mãe costumava contar que foi para um pequeno sanatório perto de São José dos Campos devido a uma mancha no pulmão. Ela deixou o marido, com quem viveu por 18 anos, e seus seis filhos, seguindo rumo à cura no Vale do Paraíba.

No hospital administrado por freiras, conheceu meu pai. Aos poucos, foram construindo um caminho juntos, pois ele cuidava dela como um bom enfermeiro, dando-lhe sopa na boca e oferecendo os cuidados necessários.

Meu pai chegou ali depois de ter sido abandonado aos nove anos. Trabalhou em fazendas de patrícios portugueses até os 18 anos, depois passou um tempo em Campos do Jordão e seguiu para São Paulo. Lá, trabalhou como enfermeiro, sendo responsável por buscar doentes mentais. Mais tarde, foi para o sanatório, onde passou a trabalhar como enfermeiro de tuberculosos, pois o salário era bom.

Era conhecido como "Tonhão Louco", temido e respeitado em Campos do Jordão por sua força e coragem. D.M.